segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

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O primeiro conto de "Ardósia"

     01 .:. Nomes

     O tempo está feio. Nublado. Não ameaça chover, tampouco o sol dá qualquer pista de quando poderia brilhar. Assim é também a população da cidade: medíocre, no sentido mais puro, ou seja, mediana. Por mais que se busque, não será encontrado nenhum gênio; e o mais desbravador dos conquistadores penará para topar uma alma realmente má. Diga-se, má o suficiente para cometer um crime bárbaro, como assassinar os próprios pais. A verdade é que jamais houve um homicídio por ali. Há quem decrete: viver em Ardósia é chato.
     Discordam os conhecedores de suas histórias.
     Nunca as ouviu? Não se sinta mal, não é o único. Ou a única, sensível leitora. Há registro de poucas testemunhas que ali estiveram... Quem é que sabe chegar lá? Sabe-se que Ardósia está perdida no interior paulista. E bota perdida nisso! O governo federal bem o sabe; em antigos recenseamentos, as equipes responsáveis pela contagem não a encontraram. Buscaram no mapa, foram pela Rodovia Castelo Branco, procuraram pela Trabalhadores, tentaram estradas vicinais... e nada. Inacreditável. O governo achou melhor ignorar o município e os censos deixaram de registrá-lo.
     Ardósia foi assim batizada por conta da pedra homônima e a escassa originalidade dos desbravadores nativos. Pouco antes da inauguração do vilarejo, descobriu-se enorme quantidade do minério nas encostas e morros. No aniversário de dez anos, as autoridades ardosienses convidaram até “o pessoal da capital” para conferir e avaliar as riquezas naturais. Pouco após as festividades – repletas de representantes da sociedade militar, civil e religiosa –, os “doutores” revelaram não se tratar de ardósia as pedras que incrustavam a vila.
Constrangimento e assunto jogado debaixo do tapete.
     O fato é que desde então se criou – sabe Deus como - enorme dificuldade em encontrar o caminho das pedras que, se não são ardósia, conduzem até Ardósia.
     Ninguém faz muita questão de turistas por ali. O povo está bem e se basta. Os comerciantes, vez por outra, lamentam a pouca variedade da freguesia. Um dos mais tradicionais é o dono de um popular boteco no centro, ao lado da praça, a dois quarteirões da igreja. Como o movimento é pouco, a cabeça tem tempo para pensar bobagens, mas Jesuíno não tem qualquer inclinação à maldade e, por isso, esses disparates afetam apenas a si mesmo. E sua família. Como ocorrera alguns anos antes.
     Inconformado com o próprio nome - e não lá muito feliz com o de sua amada, mas isso jamais admitiu em voz alta - Jesuíno queria caprichar no batismo de seu primeiro rebento, um menino. Durante a gestação, os pais travaram fortes discussões sobre o assunto; Evandra é do tipo que leva todas as situações com calma... até o marido inventar “suas doidices”. Ela olha torto, faz bico... então o marido extrapola e recebe um bule na testa.
     Bem, Jesuíno queria nome forte para o sucessor. A esposa não concordou com nenhum. Retirado das páginas policiais dos jornais, o obstinado esposo tinha seu preferido: Ilícito. Parecia até estrangeiro, meio italiano... Aproveitou-se que Evandra ainda convalescia no hospital e foi registrar o garoto.
      Um rádio estourado, dois pôsteres do “Curíntian” rasgados, três pratos quebrados e quatro pontos da cesariana abertos: eis o saldo quando, em casa, a desesperada esposa descobriu a artimanha.
Sejamos justos, Jesuíno arrependeu-se e prometeu - à enfurecida amada e a si mesmo - reparar o desencanto materno. No transcorrer da segunda gestação (agora, menina), tocou-se pouco no assunto; a mãe definiu que seria Margarida e, a cada "ahn" resmungado, soltava um olhar feroz selando qualquer discussão. Para Jesu, entretanto, em seu íntimo, concordar com ela era pouco... Era preciso fazer algo realmente grande, demonstrando que o amor repararia aquele erro. Descobriu tardiamente que Ilícito significava "contrário às leis ou à moral", conforme o dicionário do vizinho bem alfabetizado. “Posso consertar”, raciocinou.
      Seguiu a mesma estratégia, aproveitando-se da nova convalescença de Eva após o parto (não espalhem, mas no íntimo são “Jesu e Eva”. Parece meio incestuoso, mas é puro).
     Dias depois, todos em casa, a alegre mãe queria ver a certidão de nascimento da pequena Margarida. Ele soltou um frágil "ahn" e emendou "tenho uma surpresa, amor!", contando-lhe o verdadeiro nome da caçula: Idônea.
     Dormiu um mês fora de casa.

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